6 de abr de 2009

Carta resposta ao poeta Aristides Theodoro sobre insinuações à minha falta de originalidade.

Edson Bueno de Camargo



Do menor para o maior, isto é vida Abridor, mas do maior para o menor, Abridor: isto é morte.
Palavras de Incerto para Tim Hunter (personagem de quadrinhos baseado nas novelas de Diana Wynne Jones) em Os Livros de Magia – Neil Gaiman


Tudo flui e nada permanece; tudo se afasta e nada fica parado.... Você não consegue se banhar duas vezes no mesmo rio, pois outras águas e ainda outras sempre vão fluindo.... É na mudança que as coisas acham repouso....
Heráclito, fragmentos


caro amigo não me peça
para voltar para um atrás que não existe
cada dia que se passa o mundo se transforma
como Cortez antes de cobrir o México de sangue
queimei meus navios na praia para não poder voltar
a cada giro da Terra, esse não acontece no mesmo lugar
o cio dos ventos urdem as chuvas
que destruirão sempre o velho em novo dilúvio universal

o jovem Natanael era uma espécie de Sidarta
em busca de verdades absolutas
eu não
há muito já não procuro por profetas e profecias
quebrei as estátuas dos mestres e deuses ímpios que cercavam a minha Caaba
referências são necessários alicerces obscuros
que devem permanecer enterrados sob a terra
embora em momentos oportunos serão lembrados
tenho todas as respostas do mundo e nenhuma pergunta
os frutos da terra estão à minha mesa
posso pegá-los e tocá-los no momento em que quiser
a simplicidade é tão enganosa quanto a complexidade
são nossos atos e não palavras que criarão a redenção do mundo

o cheiro das coisas está em meus poemas
assim como meus poemas se diluem no cheiro das coisas
como apanham as cores do homem, da terra e da água
e as transformam em palavras
nem sempre audíveis ou facilmente compreensíveis
minhas metáforas medonhas só põem medo a quem não quer compreendê-las

não vou cantar minha pátria ou qualquer outra pátria
estas artificialidades geopolíticas que agrupam gentes sem afinidade
onde todos são esmagados pelo peso do estado
pelas peças do ouro
pela falta de pão
“fronteiras são as linhas de nossas mãos”
arame farpado para o gáudio dos poderosos
que só lembram de seus filhos amados
quando precisam de sangue jovem para homenagear Ares

não me peça para ser cristão
a humildade não cabe em meus trajes de Narciso
serei um rei mesmo em trapos apodrecidos
Caboclo das Sete Encruzilhadas irrompendo em mesa branca
lorde templário
visionário louco no sertão
mesmo que o velho deus barbudo me cubra de hóstias de sangue
não dobrarei os joelhos a nenhum deus
que não seja eu mesmo
“ Bem aventurado aquele que açoita seu deus”
já dizia Nietzche em seus bigodes de asa de andorinha


por fim
posso afirmar que declino de seus conselhos
embora agradecido de sua preocupação
não emulo meus professores
o processo de criação é um mistério e morre em seu ato
o que sai de minha pena é aquilo que me acode e me convêm
a poesia é tão rica para se manter em uma única forma
o mundo da palavra tão vasto para ser limitado
se quisesse ser simplesmente agradável ao mundo
seria como certos escritores e poetas laudatórios
sempre eivados de inveja e despeito
agradecendo às autoridades o ar que nos permitem respirar

só sei escrever em liberdade
mesmo que pague um preço por isso
ou signifique algum tipo de exílio ao esquecimento
é meu fel e minha delícia
meu coração adquiriu o peso de uma pluma para a balança de Osíris
e tenho todo o tempo da existência para perder e beber com meus amigos

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