18 de mar de 2013

Entrevista CI:PA com Edson Bueno de Camargo











 
 
ENTREVISTA CI: PA — EDSON BUENO DE CAMARGO
I) Andar à luz do sol
1. Edson Bueno de Camargo é pseudônimo?
Como quase tudo em minha vida, o fazer literário sempre foi muito aleatório, e só atentei para a necessidade de um nome artístico quando já havia feito um monte de coisas usando meu próprio nome.
Edson Bueno de Camargo não é um pseudônimo, assim como a pessoa e o poeta vivem se confundindo em suas identidades.
2. Há alguma diferença entre você, pessoa física, e o autor de seus livros, pessoa fictícia?
Às vezes penso que o sujeito que escreve não é o mesmo ser vivente do dia a dia, em outros momentos os dois se confundem.
Há diferenças terríveis entre as duas pessoas, e, no entanto, os caminhos das duas se cruzam o tempo todo.
II) Apontamentos de história sobrenatural
3. Voltemos ao seu passado – onde você nasceu, como foi a sua infância, importância dos pais na sua visão literária.
Nasci na cidade de Santo André, no Grande ABC, subúrbio da cidade de São Paulo, mas fui engendrado e gestado em Mauá, uma cidade vizinha. O meu ato de nascimento em Santo André deu-se por um acidente clínico, não havia maternidade na minha cidade, tive de nascer na vizinha.
Meu pai nasceu na roça, migrante mineiro, veio jovem para a cidade para ser peão de fábrica, semianalfabeto por muito tempo, incentivava os filhos a se educarem, dava muita importância a isto. Penso que nunca entendeu o que é o meu fazer poético, mas tem o maior orgulho de ter um filho escritor, seja lá o que for isto.
Minha mãe também veio do interior, fez até a quarta série, mas tinha o hábito da leitura que adquiriu com os pais, praticamente me alfabetizou antes da escola.
Creio que a necessidade de ler como se fosse respiração veio de minha mãe, uma leitura absolutamente eclética e empírica, o poeta surgiu por acumulação das leituras de infância.
III) Nosso testamento em cada poema
4. Que poema ou livro lhe arrebatou tanto para que se tornasse poeta? Quais são os seus autores modelo no mundo da literatura?
Havia no passado uma coleção que se vendia de porta em porta, uns micro-livros, onde eram publicados os poetas românticos brasileiros; meu tio tinha esta coleção para enfeitar a sala dele, mas li todos os livros da coleção, Castro Alves, Casimiro de Abreu, e tantos outros; além disso, minha avó materna tinha o hábito de declamar poesia de Olavo Bilac e Rui Barbosa, isso me despertou a curiosidade com a palavra poesia, e passei a ler tudo que se relacionava.
Um dia peguei um livro ao acaso na prateleira de uma livraria e papelaria que existia em Santo André, Papelaria Glória, que não existe mais, e abri uma página aleatoriamente e li um poema, o livro era de Ferreira Gullar, e o poema “Maio de 1964”,
“Na leiteira a tarde se reparte
em iogurtes, coalhadas, copos
de leite
e no espelho meu rosto.
São quatro horas da tarde,
em maio.”
lembro como se fosse hoje, tomei um choque, li um poema atrás do outro e, infelizmente, só depois de algum tempo consegui comprar este livro, naquela época não existia o Google para nos salvar nestas horas, e poesia em bibliotecas sempre foi escassa, mas foi uma epifania saber que se podia fazer poesia além da rima e da métrica, e além daquela chatice sem fim dos parnasianos. Eu tinha quatorze anos e descobri que havia um mundo todo a ser descoberto, a partir daí procurei novas leituras, e tive a felicidade de ser acolhido neste primeiro momento pela poesia de Cecília Meireles, Mário Quintana e Vinícius de Morais, comecei a poesia pela homeopatia antes de chegar a quimioterapia de um Piva, que adoro, mas é de necessário fôlego.
Acho que li de um tudo e falar de influências sempre será incompleto, mas posso afirmar que minha última fase tenho muito a agradecer ao Cláudio Willer, um pela poesia, e outro pela orientação, através dele cheguei a Herberto Helder, cuja leitura tem sido fundamental para mim.
Além do fato que, por muito tempo, fiquei isolado de qualquer grupo de estudos mais avançado ou dirigido, muitas das minhas leituras são tardias, não é raro conhecer algum autor brasileiro ou estrangeiro e me maravilhar diante de coisas que outras pessoas estão mais do que enfadadas, e isso ainda acontece o tempo todo, e para mim isto é muitas vezes uma experiência muito gratificante.
5. Diga como foi sua primeira experiência de criação poética.
Acredito que, como todo adolescente, comecei escrevendo grandes extravasamentos do eu, comiserações pessoais, e pastiche dos autores que eu considerava muito importantes, nada que se pudesse aproveitar muito. Como diz a Alice Ruiz, quase todos escrevem quando são adolescentes, alguns ficam adultos e param, outros nunca passam da puberdade e continuam a escrever por toda a vida.
Depois de absoluto fracasso com a métrica e a rima, optei pelos versos brancos e livres por parecerem mais fáceis de lidar. Sempre fui dono de uma boa retórica, e muito cedo, não necessariamente com sucesso, já tentava fazer alguma coisa diferente do lugar-comum.
Havia em meus primeiros versos uma grande preocupação social, uma necessidade de dizer diretamente as mazelas do povo etc., etc., época em que li muito Cardenal e Neruda, e comecei a voltar meus olhos e ouvidos para a cultura da América Latina.
IV) Gaveta de guardados
6. Indo alguns passos atrás no tempo, você já participou de outro grupo ou teve alguns amigos, com os quais trocava experiências poéticas?
Sim.
7. Se a resposta for sim: como se conheceram? Houve influência mútua? De que maneira ela alterou sua maneira de ver e fazer literatura?
Minha primeira experiência com um grupo, ainda na primeira juventude, foi um grupo de escritores de minha cidade, que se reuniam com o pomposo nome de Colégio Brasileiro de Poetas; foi uma vivência muito curta, pois entrei no grupo perto de seu fim. Depois disso, vivi um período de isolamento e muito pouca produtividade.
Só fui novamente entrar em contato com um grupo de escritores muitos anos mais tarde, já nos anos 2000, também em minha cidade, com um projeto para lá de ousado do poeta Guilherme Vidotto Filho, que criou a Oficina Aberta da Palavra, onde os poetas, escritores e artistas reunidos pretendiam desvelar a “alma oculta da cidade”, foi um período de grandes descobrimentos, e de muita coisa escrita; em 2007, este laboratório gerou um livro, do qual eu gosto muito, “De Lembranças e Fórmulas Mágicas”.
Em paralelo, passei a frequentar em Santo André a Casa da Palavra, onde entrei em contato através de oficinas da Escola Livre de Literatura com o poeta Cláudio Willer, e isso foi um divisor de águas para eu compreender exatamente o que eu queria com a poesia, ou o que a poesia queria comigo, foi um despertar místico literário.
V) Os pelos de uma lagarta
8. Como virou típico perguntarmos isso aos entrevistados, a fim de que vislumbrássemos uma rede de contatos e possíveis coincidências, você tem algum contato com nossos entrevistados anteriores (Pipol, Claudio Willer, Márcio Simões, Marco Aqueiva, Chiu Yi Chih, Celso de Alencar, Natália Barros e Antonio Ventura)? Como se deu tal contato? E nos revele como se dá a relação entre os poetas nos dias de hoje.
O Cláudio Willer, como já disse anteriormente, pelas oficinas literárias em Santo André, depois fomos nos encontrando em outras atividades, principalmente lançamentos de livros, leituras públicas de poesia e muitas conversas por e-mails; os outros autores da lista quase nas mesmas condições, podemos dizer que o Willer foi meu elo de ligação com muitos outros autores, muitos também pupilos dele. Com Celso de Alencar, acredito que a primeira vez que nos vimos pessoalmente foi através das Quintas Poéticas, e também muitas pessoas me foram apresentadas pelo poeta e amigo José Geraldo Neres.
Além de intenso contato virtual, e-mails, blogs, mídias sociais, a Internet tem sido um grande gerador de novas amizades e influências várias. Dado que nunca se pode descartar o livro como o principal conduto da poesia, o mundo virtual tem se revelado uma ótima ferramenta para contatos que de outro modo seriam muito custosos e complicados, através da rede temos saltado continentes e oceanos.
VI) O Linho e a Linha
9. Você está para lançar algum livro. Se sim, fale um pouco dele e, depois, revele se há alguma outra atividade que você cultiva que a gente não sabia e adoraria descobrir.
Está para sair pela Editora Patuá um livro de poesias, “a fome insaciável dos olhos”, com poesias escritas entre 2011 e 2012, poemas ainda com as relações místicas e do contato do sagrado com a palavra, um estilo profético de revelações de coisa nenhuma.
Estou preparando também um eBook, cujo lançamento será adiado por um certo tempo em virtude do compromisso com a editora, que sensatamente me pediu para não lançá-lo em concomitância com o outro. Seria inconveniente e anti-producente.
O livro pela Patuá sairá em meados de abril, e o eBook, lá pelo final do ano, ou pelo menos seis meses depois do lançamento do primeiro.
Além da literatura, tenho um pé nas artes plásticas, sou artepostalista e fotógrafo; tenho participado de algumas convocatórias e exposições de arte-postal em vários países e usado os multimeios para expor minhas fotografias.
10. Quais revistas literárias você acompanha ultimamente, seja da Internet ou impressas? Teria algumas sugestões para nós? Vê diferenças entre elas e as mais antigas?
Basicamente, sou um leitor virtual, gosto muito de ler a Zunái, Germina, Celuzlose, Laboratório de Poéticas, mallarmargens, Verbo 21, Cronópios, Confraria do Vento, a paranaense Macondo Literário, entre muitas e tantas, mas confesso que sou muito pouco afeito a ler teoria literária e me interesso mais pelos poetas e suas poesias.
Gosto muito da linguagem gráfica do fanzine, embora os que eu costumo ler são apenas os regionais e alguns que me chegam às mãos. Estou colecionando as plaquetes que são publicadas pelo CCSP e tenho gostado muito do que tem sido produzido e lido.
11. Como você vê a relação entre Universidade e poesia? Como anda a crítica literária dos portões acadêmicos para dentro? E para fora, algum sinal de vida?
Esta é uma pergunta complicada para responder, uma vez que não acompanho muito de perto esta relação; o que tenho ouvido em conferências e conversas é que há um gap entre o que está sendo produzido e o alcance do que está sendo estudado.
Sei que na grande mídia muito pouco se lê de novo, e muitas vezes cria-se a percepção que não existe de fato uma crítica, mas uma relação comercial entre as grandes editoras e os cadernos de leitura. Autores e cenas alternativas estão totalmente de fora.
Em compensação, sinto que há, e realmente há, uma grande efervescência de ideias e conceitos em órgãos alternativos, em especial na Internet, muitos blogs, embora em um emaranhado de informações, mas com muita fluência, e também em discussões muito férteis nas mídias sociais.
VII) No alto-mar das futuras combinações
12. Poesia existe fora da página em branco? O quanto ela influenciou o seu cotidiano, seu olhar diante do mundo ao redor?
Acredito piamente nisto, o papel é a última etapa da poesia, que primeiramente tem de ser vivenciada, apanhada com os olhos, experimentada em todos os paladares.
Tenho ministrado oficinas de criação literária em que o detalhe menos importante é a escrita propriamente dita, que deve ser consequência da experimentação e do acúmulo de leituras, mas com o viés da sensibilização para o poético do cotidiano, das coisas quase imperceptíveis que podem nos conduzir ao estado poético.
13. Como o poema nasce em você? Conte como é seu processo criativo.
Muitas vezes, para mim, o poema nasce de um insight, uma frase solta que me chega aos ouvidos, um primeiro verso que me causa um profundo estranhamento.
Este material é anotado em pequenos cadernos, papéis soltos que carrego nos bolsos, e ultimamente frases escritas no Facebook e Twitter; uma segunda etapa é resgatar estes escritos soltos e compilá-los, o processo de digitação serve como primeira depuração de muitas outras, aparar excessos, repetições, separar novos poemas que teimam em surgir no processo.
E, por último, uma boa correção ortográfica e gramatical, que só se completa com a primeira leitura por outras pessoas, em especial minha companheira, que tem sido minha primeira vítima.
14. Acha que o poema é um reflexo de sua personalidade? Você pensa como seus poemas?
Creio que seja, e não seja. Octávio Paz, em um ensaio muito interessante, lança a possibilidade de existir um outro dentro de nós que escreve o poema, então clinicamente com os remédios certos curar-se-ia a mania de ser poeta, mas isto não tem funcionado ao longo da História.
Há poemas e poemas, costumo dizer que a poesia é a minha maneira de lidar com o campo do sagrado, uma viagem xamânica; creio que seja impossível pensar como o poema; o poema é um lugar onde o eu se dilui completamente.
15. Quem é maior, você ou seu poema? Quem cresceu ao longo do tempo?
O poema, sem dúvida nenhuma; minha pessoa é um completo fracassado, venho de uma coleção de fracassos consideráveis, a pessoa Edson Bueno de Camargo é um absoluto ninguém, sem nada importante a contribuir para o progresso da humanidade, talvez, muito talvez o poeta algum dia seja considerado, se não for completamente esquecido.
Minha poesia tem se desenvolvido de forma muito interessante, tem criado autonomia, tem viajado a lugares onde nunca estarei, lida por muitas pessoas que não faço ideia quem são, tem me chegado de forma indireta como rumores, como se nunca tivesse tido alguma relação comigo.
O poema consegue ser sem mim, não sei se posso afirmar o contrário.
16. Já se lembrou de algum verso num momento inusitado? E já se surpreendeu com algum poema seu, fosse uma nova descoberta feita ou uma curiosa profecia?
Acontece o tempo todo, principalmente em trajetos longos de trem ou ônibus.
Tenho um poema absolutamente inédito, que me causou uma estranha impressão, onde descrevo um acidente aéreo, com fogo, chuva, e pessoas morrendo queimadas, que escrevi uma semana antes do acidente do voo TAM 3054 em Congonhas; não sei se há alguma relação, mas me soou profético.
17. O que te faz gostar de um poema? Como sabemos quando um poema é bom e quando é ruim?
O inusitado me atrai muito em um poema. O fora do senso comum, o que me causa estranhamento e principalmente o que me toca, aquele que por alguma razão repercute meu eu, com o poema que eu ainda não escrevi, aquele que me causa inveja, o poema que leio e digo que queria ter escrito, ou poderia ter muito bem escrito, porque conversou com meu íntimo. Ressoou com as minhas vibrações.
Para mim, um poema é bom quando se percebe uma preocupação do autor em construir algo novo, mesmo dentro da intertextualidade, algo autoral, na qual se perceba cuidado, trabalho e pesquisa. Embora estranhamente concluir que um poema é bom, não é necessariamente se aproximar dele de forma afetiva, gostar dele. Conheço bons poetas, pessoas que considero muito, que fazem uma ótima poesia, mas que por algum motivo não conhecido, não ressoam, não me atraem.
Faço uma ressalva que considero importante: existem poetas que são muito eficazes em emular uma boa poesia, se apoderar de uma fórmula mas que não conseguem escapar de uma análise crítica, ou mais, sempre causam a impressão de déjà-vu, de que já lemos aquilo antes em algum lugar.
18. Diga qual autor você sempre tem vontade de reler e aquele que só quer se esquecer de um dia ter lido.
Autores como Mário Quintana e Herberto Helder, estou a reler o tempo todo, e do que não gostei não precisei fazer nenhum esforço para esquecer.
19. Revele para nós um verso seu que você adora e outro, mera tentativa, que não saiu lá essas coisas...
Do poema “de um fragmento”, no meu livro “cabalísticos”, gostei muito de ter escrito isto:
“que ser homem é carregar a aspiração
de sempre retornar a úteros escuros
descer as mais profundas fendas e cavernas
e que morrer é se vestir de terra
para que uma mãe telúrica venha nos afagar os cabelos”
Foram muitos os versos fracassados, mas não consigo rejeitar nada do que escrevi, não acredito muito em revisionismos. Talvez algum verso que tente ser muito explicativo, em geral, fica inédito como esse:
“na hecatombe diária
não se espera
mas acontece
de nascer o Sol
que mal trespassa a grossa cortina
o algodão baço de fumo
fazer o café para fazer a manhã”
20. A sua poesia transmite uma simplicidade, talvez por causa da forma narrativa que a permeia, sem deixar de se mesclar a certas ousadias, numa hora, com recortes cinematográficos e experimentações estéticas, noutros momentos, repassada pela ironia pessimista de um Drummond. Qual a fórmula mágica dessa liga entre, digamos, Maiakóvski e Mario Quintana?
Um bom amigo, o poeta Jorge de Barros, brincando com minhas influências orientais, mormente a cultura japonesa, afirmou que meus poemas eram “a cerimônia do chá com pãezinhos de queijo servidos”; gostei muito desta definição, embora isto não aconteça necessariamente de propósito. Gosto de enxergar o maravilhoso e o inusitado inseridos cuidadosamente nas coisas cotidianas, gosto dos deuses vegetais, e de imaginar que um dia tudo o que fazemos como coisa corriqueira já foi um ato sagrado.
Gosto de lembrar Santa Teresa D’Ávila, uma poeta extática, antes de ser santa da igreja, que afirmava que “um dia as panelas da cozinha serão tão sagradas quanto os paramentos do altar”.
Creio que, por outro lado, a ironia venha de um pessimismo atávico com as coisas do mundo, de uma desilusão com o socialismo romântico e, ao mesmo tempo, não conseguir deixar de acreditar na utopia, permanecendo sempre em uma dicotomia.
21. Em que direção sua história poética aponta hoje? Preparando algum novo livro? Teria um poema inédito para os leitores mais curiosos?
Tenho caminhado para uma tentativa de refinamento, de síntese pela ideia e não pela estética, tenho voltado a escrever haicais, tenho fotografado insetos e pequenas flores, e depois escrito em cima desta temática, em uma tentativa de unir a palavra e a imagem, nem sempre com sucesso.
Um livro para sair pela Patuá, um eBook com poemas experimentais relativamente antigos, uma ideia fermentando de produzir um livro de artista, onde combine experimentações com texto e manipulação eletrônica de fotos.
Não planejo muito meus novos passos, gosto de deixar para a aleatoriedade, que é uma forma bonita de dizer que quase sempre estou completamente perdido.
Tenho bastante coisa inédita, mas reproduzo aqui os últimos poemas que escrevi, aliás dois haicais escritos em cima de fotografias:
“flores novas
a pitangueira trapaceia
o fim do verão”
“nespereira
flores brancas anunciam
o outono”
22. Você acha os poetas uns chatos? Eles querem ser difíceis demais? Como vê o meio literário atualmente?
Muito comprometedora esta pergunta, fico tentando imaginar o que pensam de mim. Poesia é um assunto que me encanta e me faz esquecer quase tudo, sou capaz de ficar por horas falando sobre este assunto, então, de fora, para quem não tem o mesmo encantamento, deve ser chato para caramba.
Toda a produção artística é muito narcisista, conheço muitas pessoas com um ego enorme e muito pouco talento, mas conheço os que são egoicos e são donos de uma boa produção, tendo a me irritar com os primeiros, mas nunca fecho a caixa de diálogo, pois todos sempre têm algo para nos ensinar.
Irrita-me o pedantismo de algumas pessoas do meio artístico, da falta de conteúdo, de indisfarçáveis preconceitos pessoais permeando as palavras, de um querer ser, sem realmente ser, sendo que quase sempre esta arrogância é um bom disfarce para a falta de competência e talento.
E, por fim, existem poetas profundamente generosos e profícuos, pessoas com quem aprendemos o tempo todo e que nos maravilham com suas palavras, verdadeiros mestres.
O meio literário, via de regra, é um complexo de “panelinhas”, com intrincados emaranhados, mas que só repetem um modelo antigo, mas quando não foi assim?
Gosto muito do uso dos multimeios, mídias sociais, onde existe uma democracia anárquica, quase uma bagunça, mas onde um bom leitor e um ouvinte atento irão perceber que a arte é pululante, e é muito maior que nós e nossas mesquinharias, sendo muito cruel, Fernando Pessoa foi o segundo lugar em um concurso de poesia que o revelou para o mundo: quem se lembra do nome do primeiro lugar?
Existem coisas que só o tempo histórico é capaz de revelar.
23. Que poesia é possível hoje? Toda poesia é válida?
Toda a poesia é possível e necessária; a pós-modernidade abre espaço para todas as manifestações possíveis da arte, encanta-me o ultramoderno, o experimentalismo, ao lado do canto sertanejo, da poesia popular, e acredito que uma manifestação não prescinda da outra.
Não consigo ver uma cultura como algo binário, o novo não nega o velho, se completa, se confunde, se amalgama.
Não posso falar pelo mundo, mas, para mim, a poesia não só é possível e válida, ela é imprescindível e necessária.
Março de 2013



Mãos à obra-prima!

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