4 de fev de 2009

Wall Street

Edson Bueno de Camargo


o poeta chora quando

libera flâmulas vermelhas

pelos olhos

e cintilam estrelas estéreis

que iluminam o céu

de uma Bagdá e seus prédios em chamas

as crianças correm atrás dos tanques

(igual a quando éramos garotos também

e o velho caminhão da fábrica passava)

as colunas de fumaça negra

são os sonhos

de um deus enfurecido

(mesmo que tenha sido esquecido)

-mãezinha hoje não tenho mãos

roubaram-nas os cobiçosos

pelo brilho do duro carbono

meus dedos brilham no colo da damas

nas noites iluminadas de Paris

não reconheço este

chicote e o sal que me jogaram nas costas

puxei o gatilho tantas vezes

que criaram calos nos dedos

e secou o arrependimento que me corria aos olhos

o chifre da lua

goteja sangue enegrecido

e aqueles que brilham

com membros decepados

descansam na beira da estrada

a espera dos comboios azuis

em Wall Street

garotos marotos brincam com nossos olhos e orelhas

em seu jogo de ganhar e ganhar sempre

fazem uma grotesca ciranda

arremessam dentes de ouro para sua aposta

brincos de besouros vivos

lágrimas congeladas no escuro

(antes os braceletes tinham suásticas

hoje estrelas de David, sob os ternos pretos)

os tijolos da Rua do Muro estão assentados

com medo e excrementos

é necessário sangue para seu lucro

são precisos porões e “cala-bocas”

chamam de dinheiro duas pequenas mãos decepadas

o dedo do gatilho calejado de fogo

o velho de barbas brancas

já não suporta mais o cinismo

e nos abandona

tudo se arca ao tempo

menos o medo dos fracos e o desejo de ouro dos loucos

crisântemos nascem selvagens na calçada

e renascem quantas vezes

a sola dos sapatos caros os esmagarem

e sempre e sempre esmagados em um círculo sem fim

tenho sede

dá-me de beber da água

que tens guardado

pois os que tem sede de justiça serão saciados

(só não sabemos quando)

tenho fome

dá-me de comer os que tem negado pão

para que fique mais caro

(e ficam ricos)

tenho sono

dá-me abrigo

nas casas que tens hipotecado e colocado em usura

(e tantos dormem nas ruas)

e não sei se dormir

volto a acordar neste pesadelo

ou no sonho

na costa da África

onde a serra parece as costas de uma velha leoa

o menino vê o mar e sorri

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