9 de fev de 2008

QUESTÃO DE OPINIÃO

Deise Assumpção
Início de ano letivo, lá pelos idos de 1920.
Professora ainda não era Tia, nem P’ssora, nem Pro. Era Dona Emília, ou melhor, Dona Miloca. Perfeito domínio do que devia ensinar – linguagem, aritmética e conhecimentos gerais. Larga cultura geral, falava e lia o francês, o que então era comum para uma professora primária. Formada pela Escola Normal de Pirassununga, um dos “benditos templos de instrução” do ensino público daqueles tempos. Tailleur de bom corte, meias finas, sapatos de saltos, condizentes com status e salário. Mesmo em escola de sítio, no meio do cafezal, interior de São Paulo.
Classe com crianças de 1o., 2o. e 3o. anos do curso primário, todas juntas, numa sala. Lecionar na cidade e em classe com alunos de uma única série só depois de amassar muito barro e enfrentar muito pó na estradinha percorrida diariamente, ida e volta, por charrete.
Alguns anos de magistério já lhe davam a desenvoltura da experiência. Algumas atividades iniciais, motivando as crianças, principalmente envolvendo os pequenos que vinham pela primeira vez.
E, então, hora de anotar os nomes desses novos alunos. Dos outros já sabia de cor nome, sobrenome, apelido, doenças que tinham tido, até os bichos de estimação eram conhecidos (cachorros, cavalos, bois, vacas, bezerros). Certidão de nascimento só se pedia na hora do diploma, no final do 4o. ano, para quem ia completar a escola na cidade.
Chamava um a um, transformando Chiquinhos em Franciscos, Tonhos em Antônios... Até o Ruchério conseguiu solucionar: Rogério. Sobrenome geralmente tinha à mão, pois os irmãos ali estavam na classe. E, naqueles tempos, eram sempre todos filhos do mesmo pai e da mesma mãe, com raríssimas e conhecidas exceções.
Mas com o último molequinho, de ventre crescido, boca sem dentes e cabelos nos olhos, a experiência de dona Miloca empacou:
— Zé Feição – falou a vozinha caipira engolida.
Ela pediu para ele falar de novo... e de novo... e de novo... Zé Feição, Zé Feição, Zé Feição. Era isso mesmo, ela ouvira certo. Muito bem. Devia ser o apelido:
— Então, já sei. Você é conhecido por Zé Feição. Mas qual é o seu nome de verdade? Você sabe?
— Sei, é Zé Feição.
— Não pode ser, filho, isso é apelido.
— O pai e a mãe falou, é Zé Feição.
Não desengolia a voz, não levantava os olhos, mas não arredava. Para complicar, esse não tinha nenhum irmão na sala. Mas um aluno mais desinibido, do 3o. ano, entrou na conversa:
— É sim, Dona Miloca, o nome dele é Zé Feição. E os outros, em coro, confirmaram: Zé Feição.
Vencida, a professora então resolveu:
— Está bem, Zé Feição, então amanhã você pede para sua mãe seu registro de nascimento e traz para eu ver como se escreve o seu nome direitinho.
Ele acenou a cabeça baixa concordando, mas por dentro estava decidido: não ia trazer nada, como podiam duvidar que ele era ele?
Depois de um mês de insistência da professora, certo dia entrega-lhe o registro. Corpo estático rente à mesa, olhos nos dedos que se disfarçavam cutucando o botão da camisa xadrez, mas por dentro um risinho de satisfação fazendo cócegas nas lombrigas da barriga. Ela estava abrindo o papel... estava lendo... ia ver só como era Zé Feição. Mas aí foi não entendendo o jeito da cara dela que parecia que clareava que nem quando o dia amanhece:
— Ah! Agora sim. Olha, você se chama Jefferson.
Foi para a lousa, traçou com aquela letra bonita bem grande o seu nome, mostrou para a classe toda, explicou que era um nome em uma língua estrangeira, que havia existido um homem muito importante com esse nome, etc., etc., et cetera.
Já na próxima aula, Jefferson recebeu o cartão com seu nome completo traçado cuidadosamente pela professora entre as linhas que norteavam a caligrafia, para que copiasse todos os dias.
E todos os dias, imitando a letra bonita de Dona Miloca, ele traçava direitinho “Jefferson”, soletrando mentalmente: “Zé-Fei-ção.

Um comentário:

Osvaldo Heinze disse...

Oi querida amiga!!!
logo que li teu conto lembrei de ti, de onde nos conhecemos...
Foi da biblioteca Paul Harris, pois lá que tive o privilégio de conhecer esse teu trabalho maravihoso!
Parabéns!!!
Beijo!