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18 de jun. de 2013

3 de jan. de 2011

transcendida


Cozinha Caipira (Almeida Júnior - 1850/1899) 1895 - Óleo sobre tela


Edson Bueno de Camargo


a cozinha
e os picumãs
da casa da madrinha de meu pai
dominavam a casa inteira

o fogão de lenha
queimava dia e noite
em culto profano e inconsciente a Héstia
a fumaça
enovelava o ambiente
sempre envolvidos em trevas entorpecidas
com fachos de luz
cruzando do vão das telhas às paredes

menino assustado
sentia a presença
de todas as mulheres daquela cozinha
que me falavam
na língua incompreensível dos espectros
acocorados no tempo
seus pitos
suas mezinhas
seus pés descalços

a madrinha de meu pai
tinha os cabelos cinza
de uma alquimista
que sabia do caldo da cana
ao poder doce do melaço
muitas vezes transmutada e transcendida
olhos brilhantes de santidade

a noite
meu medo infantil
confortava-se ao bruxulear
das lamparinas de querosene
no escuro
adivinhava a presença de meu tio
pela brasa do pito de palha
e a voz grave de meu pai

hoje
desta noite solitária
quarenta anos saltam para trás no tempo
ainda sou um menino tonto
livre como um cão na chuva a correr no pasto

17 de nov. de 2010

répteis

répteis

Foto a partir do satélite Ikonos -Space Imaging do Brasil / Geoeye



Edson Bueno de Camargo


vomito cobras vivas
cinco ao todo
répteis que caem ao chão
e fogem assustados
ainda úmidos
sulcam a terra
desaparecem na poeira

pajés do planalto central
visitam meu devaneio
saltam de dentro
de nuvens de fumaça branca
cheiram a querosene e tabaco
pólvora queimada e pinga
moeda cachaça para todos os santos
para juremas
para os caboclos errantes
para os egúns vivos quase mortos
que caminham pela civilização
e têm nos olhos telas brilhantes e antenas

não se sabe
se é noite ou dia
céu vermelho sobre a cabeça
tempestade de areia do Saara
dormindo nas águas quentes do Caribe

câmeras assustadas filmam o abismo
desvelam línguas e palavras
uma menina pivete desafia a polícia
com seu corpo magro e olhos de assombro
um diamante vivo em cada pálpebra
Glauber Rocha ressuscitado em Brasília
dirige tudo aos berros e euforia
(como todo bom baiano
sorri irônico como um Caetano)

tudo é sonho
tudo é vermelho
tudo cheira a esgoto a céu aberto
tudo cheira a vidro quebrado e hospital

as mesas dos botecos se embriagam
devoram as palavras que os poetas lhes derramam
lambidas por lagartos abissais
a cidade (e suas asas)
é um poço sob os discos voadores

18 de out. de 2010

dívida com o mar






Edson Bueno de Camargo


quando o mar
devolver seus mortos sem sepulcro
estarei na praia
a esperar meus amigos

abraçarei seus ossos mareados
que lavarei com cuidado e zelo
e lhes darei o devido enterro
cantarei canções de ninar cadáveres e esqueletos
e lembrarei mais tarde
ao som de tambor
ao redor de uma grande fogueira
do dia em que fiquei para trás esperando

pois que eu tenho uma dívida com o mar
assim como ele me deve
por isso não consigo mais andar sobre a s águas
nem posso ter pedras dentro da cabeça
ao modo dos peixes
nem dormir agarrado a remos
no fundo de barcos de longo calado

penso nas marcas dos pés sobre a areia
e no dia que sai da casa de meus pais
para não morrer no mar

sei que lá estão meus companheiros
em paciente espera do dia
que o mar nos devolva todos a vida

31 de ago. de 2010

sombrinha de doze varas




Edson Bueno de Camargo


1

sombrinha de doze varas
sobre o pano
dormem quinquilharias

“compra senhoro”
a mulher tem cabelos brancos
e sotaque romani

a cigana insiste
guarda-chuva chinês de muitas cores
buquês de flores
transbordam cores na seda falsa

(está caro
penso
não compro)

“faz mais barato
paga diferença depois”

já não ouço mais
minha mente já está longe
rouba o cinza do céu
e dos olhos que me fitam
uma certa indiferença

2

a árvore morta
serve de moldura
a fotografia que não tiro
(esta será só com os olhos)

pequenos pássaros
na distância parecem pretos
hoje o dia está com pouca luz

3

flores de dente de leão
pedem o sol
que a tarde nos nega

sua cor destoa
do que nossos olhos esperam




4

a mangueira
tem tantas flores
que lhe pedem os galhos

não sabe a planta
não estar em um vale
ensolarado do Ghanges ou do Indo

faz o papel ambíguo
de florescer neste planalto frio
a guardar o silêncio do horizonte esbranquiçado


5

nada muda o que sinto
a tarde só fala o que está dentro de mim

5 de ago. de 2010

viela


Edson Bueno de Camargo

das pedras ancestrais
em meio
da rua
a poça
convida a criança
chafurdar

janelas testemunhas silentes
portas e janelas
com trincos e trancas
gonzos seculares

olhos esticam
pelos vidros
atravessada
espia

lá fora
potes de barro
folhagens e flores
ausência e brisa
esperam


(Exercício de criação 1 – Gambiarra Literária)
05/08/2010

http://gambiarraliteraria.blogspot.com/2010/08/exercicio-de-criacao-1.html

8 de jul. de 2010

Contrato.




Edson Bueno de Camargo


quando me deram de comer
compraram com isso minh’alma
colocaram no fundo do prato
um contrato sem que me apercebesse

e quanto mais me fartasse
quanto maior a abundante mesa
mais partes de mim se levavam

não me sinto mais eu mesmo
há um vazio que me preenche por dentro
não há tormento,
nem angustia

só um vazio que me permeia a pele
como se esta fosse invisível
como se não fosse mais possível.



Poema publicado no livro "Poemas Do Século Passado-1982-2000", edição de autor, Mauá, SP - 2002  e  Livro da Tribo (Agenda Poética) 2004-2005 – Editora da Tribo – São Paulo-SP.

1 de jul. de 2010

esquizofrenia



O GRITO -(Edvard Munch)

Edson Bueno de Camargo


dou passos ao acaso
e como diz o poeta Antonio Machado
a estrada se cria sob meus pés

sempre quis ser um artista plástico
o poeta entrou em minha vida de contrabando
junto o músico que menosprezei

o poeta é o mais persistente
dos sintomas
de minha esquizofrenia

24 de jun. de 2010

Entregar bêbados.




Edson Bueno de Camargo

entregar bêbados,
eis uma ingrata tarefa
enfrentar mães e esposas enfurecidas

sempre
por alguma razão desconhecida
o amigo sóbrio que devolve o bêbado
é sempre a má companhia
que o conduz a bebida

joelhos ralados
roupa salpicada de vômito
cheiro de urina nas calças
palavras balbuciadas e desconexas

realmente,
é desagradável receber um destes pacotes



(Este poema é parte de meu livro inédito "index animi" que provavelmente nunca será publicado)

14 de jun. de 2010

o preparo (o último chá)




Edson Bueno de Camargo

camisas e lençóis brancos no varal
o chão e casa impecavelmente limpos
as coisas ordeiramente arranjadas
na sala e nos quartos

o jardim bem cuidado
a grama cortada

um quarto cuidadosamente trancado
tudo no exato lugar
desde o dia da morte do único filho

na cozinha
a velhinha prepara um bolo
farinha, leite, ovos, cacau e açúcar

sentado na poltrona
esperando o chá
o marido lê o último jornal

saindo do formo
aroma de chocolate

no preparo
da água fervendo no fogão
coloca com toda a delicadeza
duas colheres de raticida

(Este poema é parte de meu livro inédito "index animi" que provavelmente nunca será publicado)

15 de abr. de 2010

tudo o que me pedes




Edson Bueno de Camargo


se tudo o que me pedes
é meu olho
ainda quente
sobre a palma rósea
desta mão de luas novas
(e gelo orgânico )


deixa ao menos
que veja o Sol se quebrando
sobre as costas azuis das montanhas
entre frestas rutilantes
das entranhas da luz

desde teus cílios
molhados pelo orvalho
a correr sob as pálpebras
de ágata leitosa

este majestoso fogo
em espectros de infra-vermelho
desta gigante agonizante em tua íris

ah! mãe dos deuses
(das mulheres de ventre de barro e lava ardente)
que me reste agora a escuridão
de antes de ter nascido
do mar salgado de tuas vestes

eis que voltamos sempre
ao lugar que em êxtase e dor
nos gerou

26 de mar. de 2010

copo americano




Edson Bueno de Camargo



café da manhã na Vila Maria

sobre o granito cinza
pequeno prato branco
pão na chapa
café com leite
em um copo americano
(destes canelados por fora
desenho clássico)

que faço aqui e agora
calor insuportável
momento sem sentido
observando este rosto envelhecido
do outro lado do balcão
em espelho turvo da padaria

não me reconheço

22 de mar. de 2010

a luz para Fabrício Carpinejar.



Edson Bueno de Camargo


janelas engolem o sol por inteiro
e o golfam em forma de luz
para dentro da casa

há uma violência
no trespassar dos fótons pelo vidro
há uma dor sílica
destilada em fornos ardentes

o coração da luz
é deveras delicado
cristal indelével
que se rompe e se apaga

a qualquer momento
somos devolvidos à escuridão


a parte que te cabe



Edson Bueno de Camargo


para o amigo Celso de Alencar

Circe
amarrou a Ulisses
com não correntes
usou os músculos de sua vagina

mesmo estando em êxtase
a saudade de seu chão
e do cheiro do esterco das ovelhas
o chamavam para casa
e se libertou

Circe disse fica
mas Ítaca clamou mais alto

o esperava em casa
uma vagina mais mansa
e doméstica
sem grandes bailados
e malabarismos
mas que demonstrou um furor selvagem
ao se fechar aos machos
que não eram para ela

e na vingança e na morte
se abriu em sorriso
enquanto seu homem
trespassava seus adversários com flechas

nas noites que se seguiram
Ulisses não sentiu saudades
da insaciável bruxa deusa

Penélope
cansada de tecer
exigiu a parte do homem
que lhe cabia

13 de mar. de 2010

Bourbon Street




Edson Bueno de Camargo



o Mississipi
é o rio de minha aldeia.


12 de mar. de 2010

sono




Edson Bueno de Camargo


uma sombra
percorre meu sono

no sonho
esculpo horizontes com os olhos

22 de fev. de 2010

na origem os pés

"Foto de uma das pegadas de 1,5 milhão de anos descobertas no Quênia."



Edson Bueno de Camargo


para Antônio Jorge Valério



na origem
os pés pisaram 
este chão de basalto cristalino

planalto de pó e de origens
de plantas planares
em argila de ocre vermelho
dos ventres pungentes
que ainda gerarão a humanidade
(e de novo
e de novo)

somos todos africanos 
em nossa origem humana
todos exilados do terreno
da pátria primeira

foram os pés de nossos antepassados
fincados na terra
que nos trouxeram aqui

26 de jan. de 2010

SACIS URBANOS

foto Cecília Camargo


as potestades
e as autoridades constituídas
só verão como são de fato as coisas
além de suas lunetas que só vê dinheiro:
quando o saci
lhes roubar um sapato de cada par

um dia os senhores da terra
vão acordar
e não vão encontrar um único pé esquerdo dos calçados

(neste dia
riremos de estourar as iguargas
eu e o negrinho do barrete vermelho)

28 de dez. de 2009

nome das coisas





Edson Bueno de Camargo


1


aprender o nome das coisas
andar sobre o fogo
a medida que estas se criam


a criança traça o universo
com sua língua singela
portanto precisa
dando nome próprio
às coisas próprias


depois os mestres
lhes confrontam o que consideram errado
reprimindo um mundo novo
e em criação
recriando um velho e deformado


2


o verdadeiro nome das coisas
apreende-se à medida
que estas se criam

19 de dez. de 2009

folhas de vento




Edson Bueno de Camargo

a lua se quebra
em penhascos de faca e gelo vivo
escamas de turquesa fina aguda
plumário de serpente

folhas de vento
suçuarana de sopro
suave fumaça leve
que dá vida ao barro

irmão coiote
caminha sobre as línguas da pradaria
sobre as pegadas dos que já são extintos
dos que sempre estarão

onde o velho jaguar pisa
nasce o caminho
que se revela
a bíblia do homem não é mais a do animal
desfez-se a harmonia
as manchas das costas de felino
escrito está o nome da criança deus

porção branda da brisa
serve de alimento
às dores da rocha mãe
o parto do tempo
areia esculpindo o mundo
a cria dos peixes à superfície da água
respirados pelo grande espírito
que é pai e mãe ao mesmo tempo
inflamam os pulmões da terra
cultivam vida até onde se pode levar

tornar a lembrar o que vai acontecer
que a chuva já caiu aqui ontem
e cairá lavando as dores e o medo
por pior frio
há primavera
alento e cores

soa o tambor dos olhos
soa o coração nos dedos
soa o trovão
chuva que chega
volta sempre a carne para meus ossos