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22 de set. de 2008

PRECE



que a esperança renasça em seu último suspiro
e que seja vibrante como o primeiro choro de uma criança
doce como um filhote
bonita como uma bola de gude nova
leve como bolhas de sabão
que tenha o bom cheiro das coisas que nunca foram usadas
e que ela não seja
apenas um produto
nas mãos de quem quer se promover às custas da fé alheia
mas sim o bálsamo
que anseiam os corações desiludidos e cansados da mesquinhez humana
assim como o meu.


Lidiane Santana

6 de ago. de 2008

MALDITOS POETAS


Os poetas são boêmios,
são mundanos,
são lascivos,
são insones,
são insanos
são profetas,
são profanos,

são N O S C I V O S!


Muitos deles já morreram
e estão vivos...

Lidiane Santana

PATRIOTA, EU?


Pode parecer que sim
Mas eu não sou cego;
eu não sou surdo;
eu não sou mudo;

- Eu sei de tudo!...

Mas eu te amo mesmo assim

o que me falta é ter C O R A G E M

para demonstrar esse imenso amor nacional

fora de época de copa, de Olimpíada e de carnaval.

Lidiane Santana

QUEDA LIVRE


o
despertar dos meus sonhos
foi o meu pior pesadelo

a realidade
entrelaça-se sobre as minhas veias
me encurralando
Dando-me a forca ou o precipício
como únicas alternativas.

Lidiane Santana

REMINISCÊNCIAS

Reminiscências da minha infância
(há alguns anos)

Horário político;
Promessas, promessas, promessas;
Belos discursos;
Boca-de-urna;
Contra:
a massa de analfabetos e não-politizados
O voto certo para a melhor campanha
ou maior repercussão

A eleição óbvia


Reminiscências da semana eleitoral
(há alguns dias)

Horário político;
Promessas, promessas, promessas;
Belos discursos;
Boca-de-urna;
Contra:
a massa de analfabetos e não-politizados
O voto certo para a melhor campanha
ou maior repercussão

A eleição óbvia

Mas, agora com um agravante:
a minha obrigação de voto.

Lamento ter crescido num país sem memória (como num livro)
onde seus personagens cada qual com seu papel reconstituem sempre a mesma história.

Lidiane Santana

Discurso franco



Tenho certeza de que toda a culpa é sempre minha;

Tenho certeza de que todos que me criticaram estavam certos;

Tenho certeza de que todos que me acusaram, permaneceram inocentes de qualquer culpa;

Tenho certeza de que todos que apontaram meus erros, nunca cometeram uma falha sequer;

Tenho certeza de que todos que me injuriaram e que agora me maldizem,
estavam lá, presenciando os fatos;

Tenho certeza de que todos que me atiraram pedras, se opondo às minhas atitudes
me deram uma chance, para expor os meus motivos;
E eu tenho certeza de que todos que me julgaram tinham moral para isto.
Afinal de contas, todos eles são perfeitos...
...somente eu tenho defeitos!


Lidiane Santana

barquinho de papel


fiz um barquinho de papel

pus sobre a água

e ele começou a boiar suave


mas a fúria da maré

o levou a virar e afundar.


Assim são meus sentimentos

sujeitos ao propósito do mar

vibram de acordo com as forças que agem sobre eles

sendo

ora,
mansos, límpidos e calmos

ora,
bravos, negros e bruscos...



Lidiane Santana

23 de mai. de 2008

SAMPA

pessoas
passos
apressados
correm
carros
no
asfalto
esburacado
caos
trânsito
parado
chega
chuva
enchente
surge
tempestade
tempo
urge
este
estado
extenso
estressa
sempre
lotado
lutando
pela
esperança
espelhada
nos
vidros
dos
prédios
arranha-céus
nas
praças
calçadas
em meio
a
meninos
meninas
mendigos
que
comem
o
que

haja
hoje
generosidade
tua
se
não
amanhã
amanhecerão
assaltantes
assombrando
assalariados
sem
automóveis
blindados
violência
desalento
miséria
riqueza
favoritismo
proteção
elite
massa
desunião
individualismo
cidadão
povo
políticos
promessas
vãs
vem e vão
brancos
amarelos
pardos
parvos
negros
mulatos
miscige-
Nação
contrastes
vidas
heterogêneas
São Paulo:
oportunidades
São Paulo:
desempregados
São Paulo:
paulistanos
paulistas
São Paulo:
retirantes
agregados
São Paulo:
socialites
São Paulo:
favelados
São Paulo:
à
sua
própria
sorte
o sonho
é ilusão
São Paulo:
subúrbio
São Paulo:
jardins
São Paulo:
GRANDE
São Paulo.
São Paulo:
inferno-de-Dante-urbano
São Paulo:
lugar
que
eu
mais
amo.



Lidiane Santana

MENINA MOÇA

“Quando a menina vira mulher, os homens viram meninos”.
Anúncio de lingerie




A beleza que repousa
dentro de um casulo ainda
Um esboço de mulher
Sob contornos de menina



Lidiane Santana

ALGODÃO DOCE

quando eu era criança
os domingos eram mais ensolarados
e o meu tempo era uma eternidade

hoje os meses passam como semanas
e há dias em que eu nem vejo de que cor o céu está

quando eu era criança
os doces eram muito mais doces
os sonhos bem mais coloridos

a solidão era um país distante

nosso quintal era um universo infinito

hoje mal caibo no mundo em que vivo...

eu não tinha vergonha de chorar e pedir colo
por qualquer motivo tolo
hoje carrego temeridades nas costas e em recluso segredo

quando eu era criança
os meus deslizes até tinham graça
hoje eu não tenho direito de errar

quando eu era criança
não compreendia tão bem as injustiças
mas nas historinhas
abominava os vilões: ‘homens maus!’

hoje receio que aos poucos
esteja me tornando um deles

a vida era um algodão doce: simples, suave, macia,
desmanchava de tão leve

a saudade de tudo isso não me amolava
e eu não sentia falta de quase nada...


Lidiane Santana